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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Vamos falar de Uber?

Fonte: Tribuna do Ceará

A Câmara dos Vereadores de Fortaleza aprovou ontem (15/05) a lei que regulamento a utilização de aplicativos de transporte como, por exemplo, o Uber e nas postagens dos principais jornais da cidade o que mais eu lia eram pessoas revoltadas com a aprovação, no meio de tudo isso percebi o “mar” de desinformação e conhecimento sobre o assunto, por isso resolvi escrever.



Talvez parte da revolta das pessoas seja porque o Uber, em nota, disse que 10 mil motoristas não conseguiriam atender as regras, que o valor do serviço poderia subir até 80% e por aí vai. Para começar, bora baixar essa bola, Uber, pode guardar o sensacionalismo no bolso e lembrar que quando esse tipo de regulamentação foi incluída na Política Nacional de Mobilidade Urbana, em 1 de março de 2018, a empresa comemorou a aprovação e lá estava incluído que os municípios iriam definir as taxas que seriam cobradas, agora sim podemos falar de verdade do assunto.

Fonte: O Povo
E já que estamos falando de transporte, então estamos falando de Mobilidade Urbana e não é tão difícil notar que um dos maiores problemas do assunto é a utilização de carros. Só para termos uma noção, em 2014 atingimos a marca de 1 automóvel para cada 4,4 habitantes no Brasil e a média de ocupantes de um carro em São Paulo no ano de 2011 era de 1,4 pessoas. Se você da sua janela de ônibus, em pé apertado ou passando de bicicleta olhar para dentro dos carros notará que a quantidade de ocupantes dificilmente chega em 3 pessoas. Facilmente você nota uma ou duas pessoas, chega até a ser um pouco injusto para você que está apertado dentro do busão.

Percebem que nesses dados ainda não existem informações isoladas de transportes por meio de aplicativos? Porque é algo novo e após ler o livro “Mobilidade Urbana e cidadania” de Eduardo Alcântara de Vasconcellos fiquei me perguntando quais seriam os impactos no trânsito com esses aplicativos. Enviei um email para o autor e ele me chamou atenção para dois fatos interessantes: esses aplicativos são carros, com eles estão associados todos os impactos de um carro, e a tarifa desses serviços são “mais acessíveis”. Nosso principal problema são os carros, estamos incentivando mais carros, estamos pensando em políticas públicas para carros e estamos deixando de lado quem realmente pode resolver o problema da mobilidade, transporte público.

Com relação a tarifa destes aplicativos, elas são realmente menores em relação ao sistema de taxi e mais pessoas possuem acesso. Aí que mora o perigo, é realmente interessante que as pessoas tenham acesso a utilizar todo tipo de transporte, porém quando incentivamos esse tipo de sistema e permitimos que ele funcione de forma mais solta, haverá um grupo de pessoas que trocará seus deslocamentos de transporte coletivo pelo carro que te deixa na porta de casa, dessa forma o transporte coletivo perde na competição com esses aplicativos. O coletivo perde para o individual e a estrutura da cidade não aguenta tanto veículo individual circulando.

Não estou desconsiderando que em algumas cidades esses aplicativos já existem em modalidade compartilhada, que é uma alternativa interessante visando preencher ao máximo o veículo. Contudo o nosso principal foco deveria ser em avançar nossas políticas públicas pensando no coletivo, desde transporte coletivo e a bicicleta, integração entre sistemas. Falar de tudo isso é importante antes de focar na regulamentação.

Como estamos falando de uma cidade, por isso a noção de coletivo, precisamos lembrar que as vias são de uso comum e esses aplicativos utilizam as vias para lucrar e causam impactos nessas vias. Sei que já existem impostos com relação ao uso particular de um veículo pensando nos impactos das vias, contudo, só para terem uma ideia, o motorista do Uber que mais fez viagens em Fortaleza tem uma média de 20 viagens diárias, seria o equivalente a duas voltas e meia na Terra... não estou brincando, esses são dados disponibilizados pela empresa em comemoração de dois anos aqui em Fortaleza. A pessoa que mais utilizou o aplicativo já percorreu 9121km.... esses são só os maiores números, tem muita coisa ainda aí. Pense um pouco nos impactos disso tudo. A regulamentação só está cobrando 2% por viagem.

Válido lembrar que em março foi aprovado uma lei que inclui o transporte por aplicativo na Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) e que lá diz que os municípios vão fazer cobranças. A lei 204/2018 de Fortaleza coloca os pontos que já estão na PNMU e tem como taxa por viagem esses 2%, mas coloca que pode ser reduzido caso a empresa do aplicativo realize algumas ações que compensem os impactos dos seus serviços, ações em Mobilidade Urbana (isso os jornais não te mostraram, né? Isso algumas pessoas não te falaram, né?).

Outra exigência interessante é que a empresa compartilhe algumas informações com os órgãos públicos. Essas informações são sobre origens e destinos, tempo, distâncias, horários entre outras. São informações essenciais para planejarmos políticas públicas, porque além de ônibus, topic, metrô, taxi, teremos esses aplicativos com um impacto considerável nas vias da cidade. Então precisamos compreender esses dados para melhorar a cidade. Entretanto, tem um dos pontos da lei que não concordo, que diz que os veículos precisarão ter no máximo cinco anos. Aí sim vou concordar com a nota emitida pelo Uber quando diz que isso elitiza o sistema. Por outro lado, os carros terão identificação por adesiva e acredito que não preciso falar a importância disso depois das mortes de motoristas de aplicativos que tivemos esse ano.

A regulamentação desse tipo de transporte não é algo nova, seis países regulamentaram em 2016; em 2017 a União Europeia começou a discussão sobre a regulamentação. Por isso queria dizer que a lei não é de toda ruim e não vai impactar tanto negativamente quanto estão dizendo, válido lembrar que esses sistemas já estão impactando nossa cidade. Não podemos deixar de lado o olhar mais técnico, porque são argumentos construídos com ciência, seriedade. De leis na base do achismo e do que político A ou B acredita nós já estamos cheios e não estão funcionando, por mais que eu acredite que vereadores, de um modo geral, não tiveram esse olhar técnico.
Lucas Gonçalves Monte


FONTES:

“Câmara de Fortaleza aprova projeto de lei que cria regras para aplicativos de transporte” – Tribuna do Ceará:

"Uber estima que preço das viagens deve subir 80% em Fortaleza se Projeto de Lei for aprovado" - Tribuna do Ceará:

"Uber, 99 e Cabify comemoram regulamentação do transporte por aplicativo aprovada pela Câmara" - G1:

Alteração da Política Nacional de Mobilidade Urbana:

Regulamentação dos aplicativos pelo mundo:


Dois anos de Uber em Fortaleza:

domingo, 12 de novembro de 2017

Um ensaio informal sobre hierarquia

Fonte da imagem
Não me sinto a vontade para dizer se hierarquias são boas ou ruins em determinados ambientes, porque não tenho leitura suficiente sobre o assunto, mas já tive a oportunidade de ler algumas pessoas falando sobre hierarquia e nos últimos anos conseguir ter uma vivência em algo que não existe uma hierarquia instituída, mas uma outra forma de organização, mais horizontal, que também funciona. Contudo, algo que tem me chamado a atenção é que mesmo na ausência institucional de hierarquia e em esforços para evitar o surgimento da hierarquia, a sensação da mesma pode existir e é sobre esse ponto que quero falar.


Acredito que assuntos que envolvem poderes sempre é algo interessante, porque está diretamente ligado com a forma como as pessoas vão interagir. Ora, se entre as pessoas que tenho um vínculo de amizade noto que temos igualdade de poderes, então me sinto mais a vontade para agir, contudo se por algum momento me sentir inferiorizado, talvez eu não consiga agir tão tranquilamente e pode ser que nem existam ações que me coloquem em um “patamar menor”, mas isso de alguma forma esteja comigo.

Notemos que boa parte das nossas relações, mais institucionais, existem pessoas em posições superiores e inferiores: na escola com diretoria, coordenação, corpo docente, corpo discente; na universidade com a reitoria, pró-reitorias, faculdades e centros, departamentos, coordenações de Cursos, docentes e discentes; religiões com suas lideranças sejam mundiais, nacionais, regionais ou locais; empresa com a chefia, divisões, gerências. Note ainda que boa parte de nós temos contato com isso desde cedo e crescemos no meio disso, ou seja, temos uma história de vida guiada em meio a hierarquias, logo não é de se espantar que em nossas estruturas esteja a hierarquia e com ela todo nosso histórico de vivências e sensações.

(Daqui para frente utilizarei conceitos apresentados na seção “Determinismo Estrutural e Linguagem” apresentados no livro “Cognição, Ciência e Vida Cotidiana” que possui textos do biólogo Humberto Maturana e foi publicado pela Editora UFMG)

Quando falo em estrutura estou querendo dizer que nós temos uma estrutura que nos forma, contudo isso não nos define, porque se nos definisse, a cada mudança estrutural deixaríamos de ser quem somos e ao acontecer isso nem nós mesmos seríamos capazes de nos reconhecer a cada mudança, mas isso não acontece, porque existe algo “maior” que permite que possamos nos identificar, ou seja, algo que não muda mesmo quando nossa estrutura muda. Sendo mudança estrutural desde o nosso visual até aprender alguma coisa.

Agora o que isso tem a ver com o assunto abordado inicialmente? Tem tudo a ver, porque se existe algo que precisa se conservar enquanto estou mudando, logo alguma coisa precisa definir o que pode ou não mudar minha estrutura para que assim se mantenha uma conservação que defina quem sou.  Algo que cada ser vivo carrega consigo e pode explicar o ponto que cada entidade está hoje é sua história de vida, ou seja, nossas estruturas mudam de acordo com o que já vivemos e buscando conservar quem somos. Em outras palavras, somos capazes de nos autoproduzir, autorregular e manter interações que nos modifiquem apenas se nossa estrutura permitir, isso é chamado pelos biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela de autopoieses. Mas o que isso tem a ver de fato com o assunto?!!! Nossa história de vida está repleta de hierarquias.

Ora, se nossa própria história de vida está repleta de hierarquia e essa história nos ajuda a definir nossas mudanças estruturais de modo que uma determinada parte de nós mesmos seja conservada, então é de se esperar que aceitemos mais facilmente uma organização hierárquica, porque ela já está em nossa estrutura com nossa história de vida, contudo o que acontece se retirarmos de nossas interações essa organização? Tentaremos mantê-la enquanto nosso organismo não aceitar ou entender que essa mudança não nos será destrutiva.

Isso é tão forte que podemos até saber disso, ter consciência, mas não quer dizer que iremos conseguir internalizar tão facilmente, porque precisamos quebrar com toda uma história de vida que nos empurra para um lado. Comentei no início que tive a oportunidade de nos últimos anos ter uma vivência sem hierarquia instituída, mas lembro claramente que nos dois primeiros anos (ou até a metade do segundo ano) eu sentia uma hierarquia. Não por existir hierarquia, mas porque eu estava há pouco tempo tendo essa vivência em relação a toda uma vida experimentando o contrário daquilo, então quando meu organismo começou a entender interações e ideias que estavam do outro lado, como um todo, foi quando a hierarquia começou a se desfazer em mim.

Olha o curioso, não estava institucionalizado, mas a forma como eu estava interagindo estava criando essa organização. A interação que garantia isso poderia surgir das mais diversas formas, desde eu me sentir inferiorizado, até um conflito mal resolvido que acabou virando confronto, a não exposição direta e sincera de ideias, sentimentos e por aí vai. Algo que já notei também  nessa vivência é quando um grupo quer tomar ações, a todo custo, que interferem no agir de outro, então esse grupo, de alguma forma, tenta desestabilizar alguém que represente um segundo grupo e esteja mais próximo ao primeiro por acreditar que essa pessoa representa uma barreira e esteja acima, ou seja, aparece um assédio moral ascendente, mas isso só existe, porque o primeiro grupo vê o segundo como superior, enquanto talvez não haja essa superioridade.

 E foi quando essa modificação estrutural aconteceu que tudo mudou, porque foi possível que eu entendesse que nenhum grupo que estava interagindo com o meu era superior ou inferior, mas estávamos em níveis diferentes por termos responsabilidades diferentes. Isso se aplica até no grupo que estava compondo a coordenação, não era superior ao que eu estava, apenas com responsabilidades diferentes e sabe qual foi o resultado disso? As relações melhoraram, porque todos tinham “poderes” iguais, mas cada um no seu nível e respaldados por um acordo comum. Em outras palavras, o grupo que eu fazia parte possuía autonomia de ações dentro do próprio grupo, mas também a responsabilidade das consequências, por isso não possuíamos autonomia total, porque os outros grupos também possuem suas autonomias. As ações que interferiam nas ações de outros grupos precisavam de decisões tomadas pelos grupos envolvidos, mas sem ferir o acordo comum a todos.


Entretanto, quando ainda sim queremos tomar ações que estão para além do nosso grupo, acabamos por desconsiderar outros grupos e isso é, de certa forma, a negação do outro. Ao fazermos isso não estamos utilizando de autonomia, mas sim de soberania, logo criamos uma hierarquia por meio de ações momentâneas, mesmo que ela não esteja institucionalizada. Entendamos que autonomia não é fazermos tudo que queremos, mas aquilo que nos é possível diante de certas condições e isso, não necessariamente é uma hierarquia. Assim, em nossas relações podem sim existir hierarquias definidas ou elas estarem na forma como estamos interagindo. 

Lucas Gonçalves Monte

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Nós, homens, somos potenciais estupradores

Talvez eu esteja longe de estuprar alguém, talvez você esteja longe de estuprar alguém, talvez seu pai esteja longe de estuprar alguém, mas aqui não falo do indivíduo e sim de homens como um todo. No todo, tempos a potência de estupradores.

Para explicar isso vamos começar pelo português: ter potência significa ter a característica de potente, ter um poder e de um modo geral homens possuem esse poder para estuprar (não estou querendo dizer que todo homem vai fazer isso). "Mas mulheres também podem estuprar e já estupraram.", legal, mas vamos mudar de ponto.

Passando para um pouco de matemática: para verificarmos se homens são ou não possíveis estupradores precisamos pegar uma amostra de homens. Essa amostra precisa ser suficientemente grande e aleatória. Pense sobre esse grupo bem heterogêneo e esqueça você, seu pai, irmão e tio... você acha que esse grupo tem maiores chances de estuprar? Acredito que sua resposta será sim, porque de um modo geral há muito mais casos de assédios e estupros cometidos por homens do que por mulheres, ou seja, estatisticamente homens possuem a potência de estupradores. "Mas eu respondi a tua pergunta com um não", tudo bem, vamos para outra vertente.

Vamos falar de sociedade? Você entende que algo que aconteceu no passado é capaz de influenciar/afetar o presente né? Se você discorda disso, então provavelmente não aceitará que estamos aqui agora, porque somos o fruto de diversas interações do passado. Seja em qual for o sentido de pensamento da sociedade, o fato é que interagimos e vamos influenciando o que vem pela frente. Ora, viemos de sociedades patriarcais que valorizavam e desenvolviam habilidades de poder entre os homens e subjugavam as mulheres. Posso parar aqui ou precisa falar mais? Constantemente estávamos em sistemas que colocavam os homens em vantagens e isso trouxe um cenário onde o homem continua tendo essa vantagem, já que isso nunca foi quebrado de fato, ou seja, o homem tem diversas vantagens e isso nos dar potências. Montamos um sistema que além de dar potência para o homem faz isso em detrimento da mulher, logo reforça mais ainda nossa vantagem. Sério que você ainda acha que não temos a potência de estupradores?

Vamos ao grande problema disso tudo: não reconhecer que temos essa potência. Quando não reconhecemos isso deixamos de discutir o assunto, porque fingimos que ele não existe e ao fazer isso deixamos de encontrar possíveis estratégias que sejam eficientes na mudança da sociedade. O que precisamos fazer? Reconhecer que somos potenciais estupradores. Nós somos e é preciso reconhecer isso para refletirmos em cima dessa ideia e buscarmos as soluções necessárias.

Reconhecer essa potência não é crime algum e não afetará sua "honra", "dignidade", respeito, educação ou o que for. Tudo isso será afetado negativamente se você ter consciência dessa potência e não fizer nada para supera-la.

Lucas

segunda-feira, 6 de março de 2017

As margens do Rio Ceará...

No dia 04 de março, um sábado, pela manhã a Polícia Militar ocupa um espaço na Barra do Ceará (morro de Santiago) com a proposta de pacificar a região. “A medida faz parte da operação Ocupação – Marco Zero, deflagrada pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), e está inserida nas ações do programa Pacto por um Ceará Pacífico. ” (Jornal O Povo).

Foi montado uma tenda, colocado bandeira e definido um plano de ações ostensivas para a região. Tudo para garantir a ocupação da PM. “Segundo [André] Costa [secretário de segurança pública], a escolha da Barra do Ceará tem um simbolismo, já que uma das teorias históricas diz ter sido lá onde Fortaleza nasceu, o chamado “marco zero”. ” (Jornal O Povo).

Dia 05 de março, um domingo, pela tarde eu estou no ônibus 051 – Grande Circular voltando de um almoço bem agradável e animado dentro do ônibus para chegar em casa e fazer um brownie vegano. Tudo certo até uma ação policial parar o ônibus. Um policial já chega gritando e mandando quem pulou a catraca descer (ninguém tinha pulado). Como ninguém se pronunciou começaram a escolher algumas pessoas para descer, até chega outro agente e diz para os homens descerem. Olha para algumas mulheres e escolhe algumas para descer também.

Desço do ônibus e vou para o canto tranquilamente até um policial chegar e gritar para eu colocar a mão na cabeça. Fico lá esperando ser revistado. Policial chega gritando no ouvido de todo mundo para olhar pra frente e eis que chega minha hora de ser revistado.

Com toda brutalidade desnecessária sou revistado e o tempo todo tendo que escutar palavras que incomodavam bastante. “Já disse pra abrir as pernas” e com dois chutes as pernas ficam mais abertas e sem equilíbrio fico torto. Depois da revista solto minhas mãos e antes de baixa-las já escuto “eu disse para baixar?! Todo mundo com mão na cabeça!”.

Imagem: Google Maps
Enquanto toda aquela agressividade se repetia com as outras pessoas e com quem passava de moto ou bicicleta fiquei olhando o Rio Ceará. Em meu momento de contemplação lembro-me que naquela mesma região começou a colonização do Ceará. O Capitão-mor Pero Coelho constrói na região o Fortim de São Tiago. Depois outro militar, Martim Soares Moreno, constrói outro forte no mesmo local que tinha sido o de São Tiago, o Fortim de São Sebastião. Durante esse período de ocupações militares na colonização, fortes foram bastante utilizados para garantir as ocupações.


Esses da região da Barra do Ceará tiveram dificuldades, porque tiveram que enfrentar a “agressividade” de indígenas. Eu prefiro dizer que foi a revolta do povo que realmente pertencia aquele local. Essa parte da história sempre me chamou a atenção, porque os grupos indígenas conseguiram derrubar os fortes e vencer esses militares. Esse foi meu momento de contemplação.

A contemplação acaba quando a PM manda o ônibus ir embora e a gente ficar, então um senhor praticamente implora para voltar ao ônibus e nesse momento consigo retornar ao veículo. Em uma última olhada para a região começo a notar que mais de 400 anos depois a história parece se repetir. Mesmas estratégias, praticamente as mesmas intenções, os mesmos discursos... quase irônico.


Logo em seguida alguém coloca para tocar no celular algumas músicas do Racionais, parecia a trilha sonora perfeita para o momento.
Lucas

sábado, 14 de janeiro de 2017

História, nossas histórias

Andando pelas ruas da cidade encontro um rosto peculiar. Com seus jeitos que pertencem só a si, falava e gesticulava mostrando a todas as pessoas ao seu redor quem era e até onde ia seu conhecimento de mundo. Um olhar mais atencioso deixava evidente que aquilo tudo não passava da superfície de todo conhecimento que estava presente naquelas falas.

Entre risadas e falas, aponta para mim e com um largo sorriso resolve me questionar. Pergunta o que faço ali e o que está faltando nas coisas que estão ao meu redor... desde objetos até mesmo o tempo. Basta apenas uma troca de palavras de trinta segundos para que eu note que eu estava envolta daquela energia ansiosa por histórias.

Começa falando sobre a importância de todas histórias. Sejam aquelas contidas nos livros, nas vivências cotidianas e até nas viagens ficcionais. Comenta como as mais diversas histórias são importantes e o quão é problemático uma pessoa não querer conhecer e entender tudo isso. De fato, são as histórias que compõe a nossa história de vida pessoal que vão construindo quem nós somos. As pessoas que estavam ao redor poderiam não entender exatamente isso, mas entendiam aquela forma de falar que chamava tanto a atenção.

E assim fiquei por 10 minutos ouvindo e falando, rindo, escutando as críticas, fazendo planos e convites. Contudo, diante de escutar pequenos trechos de vivências que iam tecendo um retalho de vida, não tive a oportunidade de compartilhar minhas histórias. Talvez eu nem tenha tentado fazer isso. 

Então esse é um momento de retratação e valorização do contar histórias, do fazer histórias, do próprio viver e compartilhar tudo isso. O curioso é que ao contar esta história eu já não sei definir se alguma parte é história ou estória, mas me parece que a composição fará parte da História, a minha História. 

Lucas

domingo, 8 de janeiro de 2017

E se...

Recomeços, principalmente em passagens de anos, puxam reflexões sobre o passado já concretizado. As vezes nesse processo de reflexão questionamos o próprio passado na expectativa de um presente diferente. Isso é bem fácil, basta você pensar “e se?”

E se eu tivesse ficado em casa?
E se eu não tivesse tentado?
E se eu adiasse o encontro?
E se faltasse tinta?
E se eu não fosse pedalar nesse dia?
E se eu não quisesse participar?
E se eu não tivesse me dedicado?
E se eu não mudasse?
E se eu não acreditasse?
E se...

sábado, 31 de dezembro de 2016

Um ano de ocupação e leitura

                Esse ano de 2016 entra na lista dos anos mais conturbados e movimentados que já vivi. Se tivesse que resumir em duas palavras escolheria “ocupação” e “leitura”. Entre coisas boas e ruins, fica o julgamento dessas coisas ao individual, quem viveu com intensidade esse ano teve que utilizar de bastante ocupação e muita leitura.
De 2015 até hoje podemos acompanhar no país os movimentos de ocupações por secundaristas e discentes universitários que transformaram suas escolas, colégios, faculdades e universidades em novos espaços para formação. Em luta contra reorganização das escolas em São Paulo, reformulação do Ensino Médio, PEC 241/55 (PEC do teto de gastos públicos), Governo (fora) Temer e outras pautas pertinentes as necessidades de cada local, os diversos grupos de ocupações mostraram sua força e iniciaram perturbações que trarão transformações nos próximos anos.
Para quem se prende em competição e acredita que tudo não passa de ganhar ou perder, vai dizer que quem lutou esse ano perdeu, contudo ignora a capacidade transformadora de interações em grupo. Interações que aconteceram em grupo e foram construídas em grupo, ou seja, sem ler teorias sobre trabalho em grupo ou cooperação esses grupos colocaram em prática o que é defendido e orientado por diversas pessoas da área da educação e formação, em especial a Aprendizagem Cooperativa.

segunda-feira, 21 de março de 2016

5571: o número da impotência

                O que pode acontecer com o número 5571? Endereço, pedaço de um telefone, algum bilhete de loteria. É algo tão aleatório que poderá remeter a qualquer pessoa, qualquer lembrança. Em mim? A impotência. 5571 é o número da impotência.
                O que pode fazer um ciclista depois de pedalar seus 5km e 571m? Nada além de relaxar na noite do centro de Fortaleza, ou pelo menos deveria tentar. Contudo, o 5571 estava um pouco próximo e eu mal sabia de sua presença.
                Depois de pouco mais de um minuto e meio, que, em segundos, é pouco mais de 92 e em seus milissegundos equivale 5571, o 5571 chegaria próximo a mim. Noto que algo está se aproximando de minha bicicleta, mas não tenho tempo de definir com clareza o que é, só percebo que essa aproximação está inferior a distância de 1,5m, então estico o braço para mostrar a distância que preciso para ter uma segurança.
                Contudo, era o 5571 que ao ver meu braço levantado avança com toda velocidade, o que me obriga a retirar a mão com maior velocidade. Consigo manter o equilíbrio na bicicleta, então reclamo pela ação do 5571 e quando faço isso o 5571 logo grita “coloca a mão de novo para você ver”, “na próxima vez continua na minha frente”... que reação tomar ao ser ameaçado dessa forma e de outras? Não demora muito e ele está atrás de mim, mas o que fazer? Denunciar o que? Para quem? Sinto só aquela impotência do trânsito enquanto vai ficando para trás aquele 5571 estampado na pintura da viatura!

sexta-feira, 18 de março de 2016

Três anos de devaneios

Hoje o blog Devaneios Universitários está fazendo três anos e com algumas novidades que serão explicadas no vídeo:





Então é isso, agora temos dois autores no blog e esperamos conseguir construir textos cada vez melhores.

sábado, 5 de março de 2016

Menino na rua

Andando pela Av. da Universidade, embaixo de uma leve chuva um jovem, negro, sujo, com roupa rasgada me aborda e pergunta se tenho algum trocado. Não tenho, mas o cumprimento, ele me dá um abraço e vai embora...

...um tempo depois o mesmo jovem me aborda na Av. Treze de Maio e lá estamos nós novamente. Ele não me reconhece, mas me cumprimenta e diz que acabou de sair da prisão e quer voltar para casa, mas não tem dinheiro nem para comer e mais uma vez me pede um trocado. Digo que não tenho, mas eu não tinha mesmo, e troco uma ou duas palavras com ele...

...dias depois estou andando pela Av. da Universidade e o vejo falando com alguém em uma parada de ônibus. Uma amiga que estava comigo diz que ele estava assaltando a pessoa e levanta seus argumentos, contudo não quero acreditar que o mesmo jovem que tinha trocado algumas palavras comigo estaria fazendo aquilo que ele disse que não queria fazer. Sigo meu caminho, mas aquilo fica na minha cabeça...

...ontem andando a noite pela Av. Treze de Maio adivinha quem encontro? O mesmo jovem ao lado de outro andando. Ele tenta me abordar, mas o pensamento de que ele possivelmente assaltou uma pessoa dias antes faz com que eu o ignore e siga no meu caminho. Contudo essa minha ação ficou perturbando minha mente: por que eu tinha feito isso? O que isso pode gerar? Quais as consequências da minha ação naquela pessoa?

...hoje andando pela Av. Treze de Maio adivinha quem encontro mais uma vez? Isso mesmo, o jovem. Dessa vez retiro uma simples cédula de dois reais e vou até ele para entregar. Ele me reconhece e digo que no outro dia não tinha nada para dar, mas dessa vez poderia ajudar. Converso um pouco com ele sobre que decisões tomar, sobre tomar cuidado com alguns caminhos e toda sua atenção olhando olho no olho mostra seu envolvimento naquela conversa. Mas eu sei... eu sei que uma cédula de dois reais não mudará em nada, não é de uma pequena assistência que ele precisa, mas foi o que deu para fazer...
Fonte


...depois de conversar com uma amiga pego minha bicicleta e sigo em direção a Av. da Universidade. Vejo o jovem comprando uma garrafinha de água com os dois reais. Talvez aquela simples assistência, aquela cédula de pouco valor tenha sido de muito valor e não tão simples naquele momento...





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Não sairemos das ruas

Não adianta xingar, gritar, fazer gestos ofensivos com as mãos... não sairemos das ruas!
Se fizesse uma lista com todos os palavrões que ouvi, já teria montado um dicionário de expressões ouvidas e se eu fosse gritar de volta, já iria ser preciso fazer os mesmos gestos ofensivos como “retribuição”.

Não adiantar ficar encarando e esculhambando quando passar... não sairemos das ruas!
Sabe aquele olhar de raiva ou aquela palavra mal dita gratuitamente? Não vai adiantar, porque não sou intimidado com cara feia, afinal me olho no espelho todos os dias.

Não adianta ameaçar ou ficar fingindo algo para amedrontar... não sairemos das ruas!
Parar o carro do lado ou ficar acelerando no sinal vermelho não será o suficiente. Muito menos se vier acompanhado da frase “vou passar por cima”.

Não adianta falar que é você quem manda na rua ou mostrar... não sairemos das ruas!
Você não é o dono da rua e nem adianta tentar mostrar algo, porque estou bem consciente da minha posição em cima desse asfalto.

Não adianta falar que seremos roubados durante o caminho... não sairemos das ruas!
Posso ser roubado fazendo isso ou não; posso ser roubado de outra forma, mas não quero deixar que as palavras negativas me roubem a liberdade de sentir o vento no rosto enquanto o suor escorre por todo esforço realizado.

Não adianta fazer “fina educativa”... não sairemos das ruas!
Estou educado o suficiente para saber que o local da bicicleta é ao seu lado em uma avenida/rua e sei que a distância lateral tem que ser 1,5m e mesmo que você insista em não respeitar isso, não sairemos das ruas. Não sairemos, porque no momento que a pessoa que pedala aceita esse tipo de atitude e para de pedalar permite que o veículo maior, não só o “vença”, mas deslegitime a bicicleta como veículo de transporte.

Pedalar contra todas essas adversidades é buscar o reconhecimento de que a bicicleta é um veículo e precisa coexistir com outros veículos no trânsito; é tentar mostrar que é possível um fluxo harmônico entre as peças quem compõe essa rede muitas vezes caótica; é acreditar que existem formas alternativas e eficientes de deslocamentos nas cidades e legitimar a utilização da bicicleta como meio de transporte. Fazemos parte do trânsito, compomos o trânsito e uma hora terão que entender isso.

Não adianta nos atropelar... não sairemos das ruas!
Essa parte é um pouco mais complicada, mas também não sairemos. Já tentaram me atropelar, já tentaram atropelar pessoas conhecidas e desconhecidas. Já conseguiram, mas não deixamos de pedalar. Por cada pessoa que morre no trânsito ao pedalar vítima da má estrutura viária para a bicicleta, da imprudência de outros veículos ou qualquer outro motivo, não podemos deixar de pedalar. Ao fazermos isso estaríamos considerando cada falecimento em vão, enquanto continuar pedalando é carregar o nome de cada pessoa que não desistiu.

Cada pessoa que faleceu pedalando e sem desistir de acreditar nessa forma de locomoção é responsável pela mínima estrutura que temos hoje. Foram seus esforços e sacrifícios que trouxeram um pouco mais de segurança para cada um de nós, então é justo com essas pessoas que abandonemos a bicicleta.

Sabendo que posso falecer pedalando e que posso ter problemas ao reivindicar por mais estrutura para a pessoa que pedala é que tenho de pedalar mais. Porque da mesma forma que as pessoas que já passaram por essas ruas lutaram para eu termos o que temos hoje, somos responsáveis pela estrutura que as pessoas do futuro vão ter. Na verdade, as pessoas de um futuro tão próximo que pode se confundir com o presente ou, quem sabe, até mesmo você chegará a aproveitar essa mudança. Por isso não podemos sair das ruas e deixar lado a luta para legitimar a bicicleta como meio de transporte.


Não sairemos das ruas por tantos motivos, por tantas pessoas, mas nesse texto, em especial, não sairemos das ruas em honra ao Sr. Vicente Veloso Neto, o Xuxa, que faleceu aos 67 anos de idade enquanto pedalava pela cidade de Fortaleza – CE.

Vicente Veloso Neto, o Xuxa (Jornal O Povo)



domingo, 31 de janeiro de 2016

Porque eu tenho uma sirene

Fonte
                Pedalar pela cidade faz com que seus olhos se abram para pequenos detalhes que diversas vezes passam despercebidos quando estamos imersos no tédio e no cansaço de outros modais.
                A atenção proporcionada pelo pedalar faz você notar quando os outros veículos estão ali se afastando para passar um outro veículo com uma sirene ligada. Você também não vai passar, o ideal é dar passagem para o veículo com o sinal sonoro, afinal uma emergência/urgência pode está acontecendo naquele momento. E a sirene se aproxima... ambulância ou polícia? Qual seria daquela vez?
                Uma viatura da Polícia Militar cruza a avenida em alta velocidade com aquelas luzes vermelhas iluminando o espaço. Rapidamente passa pelo local que costuma ficar engarrafado, porque, afinal, está com a sirene ligada e provavelmente estará atendendo uma ocorrência.
                Já do outro lado da avenida a sirene é desligada e a velocidade reduzida. A viatura para e deixa alguém descer, bem arrumado, bem aparente. A pessoa desce, se despede das outras pessoas que estão dentro do veículo e segue andando tranquilamente pela calçada de uma das avenidas mais movimentadas, o veículo tranquilamente segue seu destino e o trânsito se ajeita para continuar... nada de grave, só nossas corrupções diárias.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Eu nasci assim

                Sozinho em uma parada de ônibus a noite é, aparentemente, um local interessante para conhecer um pouco mais de Edgar Morin e deixar os pensamentos fluírem, tentar deixar aquilo que te incomoda passar enquanto não chega o ônibus possivelmente lotado.

                Contudo, dessa vez, o ônibus estava vago: motorista, trocador, uma pessoa adulta e um jovem por volta dos seus 14 anos. Parecia uma extensão da parada de ônibus, a solidão perfeita para deixar que os pensamentos circulem livremente enquanto tentava ler um livro no movimento do ônibus.
Fonte
                Mas só parecia. Quase 10 minutos depois que entrei no ônibus o jovem chega próximo ao motorista fazendo o formato de uma arma de fogo com os dedos e fingindo que atira pelos cantos, até finge que atira no motorista depois de colocar a “arma” na cabeça de sua “vítima”.
                O jovem senta próximo ao motorista e o segundo pergunta:

— Aprendendo a ser perigoso?
— Aprendendo? Eu nasci assim, nasci perigoso. — disse o jovem.
— Tu é tão perigoso assim?

domingo, 17 de janeiro de 2016

Neste dia, quem é você?

                Neste dia... ...você já parou para pensar no que já aconteceu com você no dia de “hoje”, mas nos anos anteriores? Quem era você no dia de 2015, 2012, 2009, ..., até o dia que nasceu?
                Se você é um usuário assíduo do Facebook, assim como eu, que costuma expor parte da sua vida e ideias pode contar com o recurso “NESTE DIA” para ver tudo que postou nos últimos anos e em algumas vezes pode parecer constrangedor ver algumas ideias.
                Um exemplo disso é vejo que já postei dizendo que bandido bom é bandido morto, fui contra a legalização do aborto (já virou até texto aqui), disse que greve é perder tempo e tantas outras ideias que vão justamente ao contrário do que hoje defendo, mas o Facebook faz questão de lembrar de tudo isso, mas isso não é ruim e não há motivos para vermos tudo isso e simplesmente querermos apagar de nossas vidas.
                “Mas eu não sou mais aquela pessoa que falou tudo isso” você pode dizer e não estará totalmente equivocado, mas, em partes, você ainda é aquela pessoa que postou tudo aquilo, mesmo que não concorde com as ideias.
                Notemos que você nasceu sendo uma pessoa, cresceu sendo uma pessoa e ainda é essa pessoa. Qualquer pessoa amiga sua sabe disso, porque vai lembrar do seu nome e do que conhece da sua história, é você, mas ao mesmo tempo essa pessoa amiga sabe que você mudou e quando você olha para o passado sabe que mudou e, talvez, já não se veja naquela pessoa do passado.

Como pode ser você aquela pessoa do passado e ao mesmo tempo a pessoa de hoje?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Papai Noel existe

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                Então é Natal e com esse período surgem as confraternizações e reuniões familiares. Diversas famílias, hoje ou ontem, devem ter se reunido em torno de uma mesa para fazer uma ceia, seja ela farta ou não, com a intenção de aproximar as pessoas e retomar aquele espírito familiar.
                São festas lindas, em grande maioria, onde cada grupo comemora da sua forma, a que mais agradar. Sorrisos, comidas, bebidas, fotos, trocas de presentes e mais algumas coisas que vão mostrando a face da família; uma face alegre.

                Uma linda família que esconde por baixo dos sorrisos muito rancor e desunião. Aquela aparente união, de fato, é uma desunião. Ligados pelo ente mais velho, ou simplesmente por um sobrenome, o grupo sabe que não está completo, sabe que funciona por pequenas estruturas interligadas somente por um ou dois nós e que quando esses nós se forem toda a estrutura cai e a família passará a não se reunir mais.
                Em outras palavras, diante daquelas memórias de uma família quase perfeita o que restou foi apenas uma sombra do passado e uma ilusão que as pessoas fingem acreditar; fingem que a família bonita ainda existe, enquanto lá no fundo sabem que aos poucos o grupo vai morrendo, porque somente o sobrenome não é capaz de mantê-los unidos. Alguns já perderem as forças para resgatar as raízes e as ações superficiais já não são suficientes.
                Contudo o natal segue a cada ano. E nesse passar do tempo o grupo vai se reduzindo e das pessoas que ficam poucas acreditam que é possível uma reviravolta. Muitas já estão, na verdade, conformadas e só vão se reunir porque é o que tem por enquanto que ainda existe aquele ente mais velho unindo. Outras ainda estão mais ludibriados pela ilusão criada de que a família é forte.
                Tudo isso pode gerar uma situação desconfortável por dar uma sensação de artificial, de algo forçado e que muitos sabem que é verdade, mas não vão reconhecer publicamente para não gerar mais desconforto, mesmo esse desconforto podendo ser algo positivo, porque dele, talvez, surja uma solução eficiente.
                Entretanto, é mais fácil aceitar a ilusão e, como já tinham me falado, as pessoas precisam um pouco de ilusão, de ficção, da coisa mágica envolvida, então entre Papai Noel e família perfeita, fico com o Papai Noel e prefiro encarar a sincera e dolorida realidade de uma família.




quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Aceita uma senha?

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                É curioso como as pessoas conseguem sobreviver dentro de um sistema. A capacidade de modificar-se para sobreviver em um mundo que constantemente tenta lhe derrubar leva algumas pessoas a fazer o jogo do sistema e são essas pequenas ações que, mesmo fortalecendo o sistema em questão, leva a pessoa sobreviver. Não viver, apenas sobreviver.

                O carro procura um canto para estacionar e aparece um flanelinha mostrando um espaço para estacionar e orienta como colocar o carro. Descemos do veículo e se aproxima um senhor nos seus sessenta e tantos anos, com estatura mediana, pele marcada pelo sol e o rosto todo suado, afinal eram doze horas da tarde. Para quem não sabe o que é ficar no meio da rua de Fortaleza nesse horário, é o mesmo que ficar em uma estufa sem umidade. É um exagero, claro, mas é horrível.
                Íamos ao cartório, então o senhor se aproxima e diz que o local está lotado, então ele nos ajudaria se ajudássemos com o natal dele. Até aí tudo bem, logo em seguida o senhor entrega um papel e diz que é uma senha para sermos atendidos logo.
                No papel tinha 118; no painel do cartório tinha 111; na senha que eu deveria estar, ao chegar no local, tinha 145. Olha só que diferença, do 118 para o 145, fiquei com a 145 mesmo. E o senhor foi fazendo isso com todas as pessoas que ele conseguia atender, alguns não prestavam atenção para ele e simplesmente ignoravam, já outros estacionavam sua Hilux com adesivo “fora PT” pegavam a senha rapidinha e agradeciam.
                Passava um tempo, então o flanelinha entrava no cartório, pegava um copo de água, pegava mais duas senhas e voltava ao seu posto. Um absurdo aquilo, trocava a senha pelos “favores”, mas quando noto chega uma pessoa do cartório e fala alguma coisa com o flanelinha. Cinco minutos depois ele retorna ao cartório com uma quentinha e entrega para a pessoa que falou com ele e assim segue fazendo mais alguns favores ao cartório.
                Vejam só o sistema como é interessante: ele troca as senhas pelo cuidado dos veículos e algumas moedas, faz alguns favores para as pessoas do cartório para poder ficar no local sem ninguém reclamar, as pessoas do cartório dizem que isso é normal e que sempre existiu (sim, eu perguntei).
                Assim segue aquele pequeno sistema interagindo e sobrevivendo naquele espaço...





sábado, 19 de dezembro de 2015

Vamos dar certo?

E uma vez perguntaram: como sabe ser duas pessoas vão dar certo?


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                Quando essa pergunta foi feita a real intenção da pessoa não era saber, a priori, a resposta, porque para chegar na resposta dessa pergunta precisamos passar por diversos outros pontos que constroem uma possível resposta. O que, talvez, a pessoa procurasse descobrir era como evitar as desilusões, sofrimentos, angustias e tantas outras sensações que levam os seres a “não darem certo”.
                Ninguém quer sofrer, nem se arrepender ou ficar magoado por algum motivo. É muito simples fazer com que nada disso ocorra basta sempre termos cuidado e olhar atencioso para evitar qualquer início de sofrimento. Talvez com cautela e com o pé atrás possamos sempre evitar, a maior parte do tempo, todo início de dor. Apareceu a dor? Mude o caminho, evite sofrer e mantenha isso em mente.
                Mas... o que isso tem a ver com o Devaneios Universitários? Por que um texto nesse sentido? Simples, porque estamos falando de relações entre pessoas, seja quaisquer dessas relações. Em outras palavras, é do viver em sociedade que estamos debatendo e a solução mencionada para evitar uma possível dor proporciona meios para termos um mal viver em sociedade.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Por que estudar Educação Ambiental?

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As sociedades, por terem suas demandas limitadas por recursos considerados escassos, precisam constantemente procurar estratégias para administrar essa relação. E um questionamento bastante recorrente quanto a isso é: como fazer para essa relação se desenvolva em equilíbrio com o meio ambiente e a posteridade. Não seria nada espantoso que uma estratégia eficiente para a resposta da relação desenvolvimento x ambiente saudável começasse com Educação Ambiental.

Mas o que é Educação Ambiental (EA) e como ela poderia ajudar no desenvolvimento de uma sociedade? Segundo a Conferência de Tbilisi[i] (1977) e a Comissão Interministerial de preparação para o Rio-92[ii], a Educação Ambiental é definida como uma dimensão da educação que mescla teoria e prática visando à resolução de problemas ambientais com enfoque interdisciplinar levando em consideração os aspectos socioeconômicos, políticos e culturais de uma região onde cada indivíduo e o coletivo sintam-se ativos e responsáveis por aquele espaço.

Então quando propomos estudar EA queremos atingir o máximo de dimensões de um indivíduo e do coletivo e assim entendermos-nos pertencentes ao meio ambiente. Esse é um ponto que precisa ficar bastante claro: todos nós somos parte constitutiva do meio ambiente. Genebaldo Freire[iii] diz que o desafio da EA é o de “criar as bases para a compreensão holística[iv] da realidade.”.

Para criarmos essas bases, precisamos utilizar ferramentas pedagógicas que despertem a percepção ambiental, pois ela nos permitirá enxergar e compreender o todo e, quando isso começar a se estabelecer, poderemos ver os seguintes pontos: um meio saudável permite que as pessoas que ali frequentam estejam menos expostas a doenças (meio x saúde); incentivar a cultura e manter aquele meio cultural existente está conectado com respeito entre as pessoas, e isso vai implicar em segurança, por exemplo (meio x cultura x segurança); sentir-se pertencente a um espaço irá influenciar na vontade de estar ali e produzir algo (meio x produção) e de que repensar nosso modelo de economia irá influenciar as gerações futuras (economia x sustentabilidade).

Essas são algumas das muitas conexões que podemos compreender através da percepção ambiental, afinal tudo está conectado. Não é uma mudança simples e nem fácil, mas alguns grupos de estudos/debates, empresas e pesquisadores vêm conseguindo alcançar e mostrar as melhorias trazidas por essa mudança de percepção.




[i] Primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizada em 1977 na cidade de Tbilisi, antiga URSS.

[ii] Comissão que preparou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio 92) ou Cúpula da Terra, na cidade do Rio de Janeiro em 1992.

[iii] Livro: Educação Ambiental – princípios e práticas, 2010.

[iv] Compreensão holística, aqui compreendida, diz respeito à compreensão de que o todo é maior que a soma das partes isoladas.




domingo, 20 de setembro de 2015

Sobre Sergipe: Aracaju e São Cristovão

O ente curioso
                Para vivermos qualquer experiência precisamos estar abertos para sermos modificados. Se chegamos em um local ou estamos prestes a vivenciar um determinado momento precisamos destravar nossas resistências para que aquela situação traga mudanças em nós e nós proporcionemos mudanças nas entidades envolvidas, se elas também estiverem abertas.

                Assim chegamos em Sergipe, de peito aberto, sem criar grandes expectativas, mas abertos para conhecer o local. Aracaju encanta logo na entrada com sua vegetação bem verde e brilhosa. Aquele verde bem vivo em torno da avenida de entrada.
                Como um ente curioso tento olhar além daquela vegetação e meu olhar direciona-se para a selva de pedra que viria a surgir. A primeira característica que chamou atenção foi a ciclovia. O trecho vermelho na avenida era bastante curioso, pois não ficava na pista, mas no meio do local separado. A cidade tinha aproveitado o canteiro central para construir o espaço para a pessoa que pedala. Não era o espaço para pedestres, era o do ciclista, porque o pedestre tinha sua calçada nas extremidades.
                Apesar de ser algo diferente de boa parte da cidade de Fortaleza, não crio tantas expectativas, porque, da pouca experiência que tenho, sei que no primeiro viaduto a ciclovia seria descontinuada, desconexa, mas foi aí que minha primeira falta de fé me traiu: o viaduto começou a surgir, mas a ciclovia não desapareceu. O instrumento de mobilidade não era tão inclinado, então permitia a continuação do espaço para bicicleta, mas dessa vez com uma proteção de grades. Detalhe: a pessoa que transita a pé continuava com seu espaço nas extremidades separado dos carros.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Um olhar: do Ceará à Sergipe

Fonte da Imagem
                Logo na manhã de quarta-feira saímos de Fortaleza – CE com o destino de São Cristovão – SE. Com a previsão de 14h de viagem sabia que iria ver muita coisa na estrada, não só pela duração, mas por eu conhecer quase ninguém que viajava comigo, então recolhido em minha poltrona fiquei esperando o que a estrada iria mostrar, contudo não imaginava que iria mostrar um texto.

                Passando por Aracati seguimos para sair do Estado do Ceará e ainda sobre o sol que assolava a estrada paramos para almoçar em Mossoró – RN. Deste local temos um ponto bastante interessante, quase todos os restaurantes da estrada são do Rio Grande do... Sul! Sim, restaurantes gaúchos em terra potiguar. E interações acontecem.
                Animação segue com o grupo por estradas que foram construídas para facilitar o comércio, desbravar os sertões, exaltar governos, sejam militares ou eleitos democraticamente, e diversos outros motivos que fogem dado meu pouco conhecimento. O que teriam ocorrido nessas vias?